Hospital INC - Instituto de Neurologia de Curitiba

Enxaqueca pode acometer crianças a partir dos dois anos de idade

Os sintomas da enxaqueca ou migrânea, dor de cabeça, em crianças tendem a ser mais difíceis de identificar do que entre os adultos
Enxaqueca não parece ser uma doença de criança, mas a condição pode acometê-las tal qual os adultos. E o pior: como nem sempre as crianças sabem explicar o que estão sentindo, os sinais passam despercebidos pelos pais.


Isso acontece porque a doença pode apresentar os primeiros sinais ainda na fase bebê, conforme explica Paulo Faro, médico neurologista. “No nosso ambulatório específico de enxaqueca entre crianças e adolescentes, o caso mais precoce de início dos sintomas era em uma criança com dois anos”, explica o médico, que também é chefe do setor de Cefaleia e Dor Orofacial do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC).


Em casos assim, os pais devem ficar atentos a alguns sinais importantes:
A criança para de brincar de repente? Ela se esconde da luz? Barulho parece incomodá-la? Ela fica quietinha de repente?

Esses sinais, de acordo com Faro, são bastante sugestivos de enxaqueca. “Conseguimos perceber [se é enxaqueca] pelo relato dos pais de como a criança se comporta. A intensidade da dor é semelhante ao adulto. Provoca dor de moderada a forte intensidade e o que muda é a duração”, explica Faro.


Entre os adultos, é habitual uma enxaqueca durar entre quatro a 72 horas. Nas crianças, o período é de duas a 72 horas. De acordo com Faro, estima-se que 3% dos pacientes pediátricos apresentem enxaqueca e a prevalência aumenta com o passar da idade. Entre os adolescentes, por exemplo, pode chegar a 12% — semelhante ao número da doença entre os adultos. “A enxaqueca é muito sub-diagnosticada [entre crianças e adolescentes] porque muitas vezes os pais e professores encaram a dor de cabeça como birra, como se a criança quisesse trocar por outra coisa, e na verdade não é. Cada vez que retarda o diagnóstico, a doença avança. É muito frequente a criança que chega ao consultório com dores de cabeça diárias e tomando analgésicos”, alerta Paulo Faro, neurologista.


Tratamentos
A Associação norte-americana de Neurologia e a Sociedade norte-americana para Dor de Cabeça lançaram recentemente novas diretrizes para o tratamento da enxaqueca entre as crianças e adolescentes. Apesar de não trazerem nenhum medicamento novo, as diretrizes reforçam que os tratamentos realizados hoje pelos neurologistas têm embasamento científico. Para esse público, combinações de anti-inflamatórios não esteroides e tripanos aliviam a dor aguda. Já os sprays nasais com triptano e o uso da terapia cognitivo-comportamental (TCC), associada a amitriptilina, podem trazer resultados benéficos também na migrânea crônica. “O tratamento, de maneira geral, segue o mesmo parâmetro dos adultos. Avaliamos a frequência da dor de cabeça que a criança apresenta, se é mais ou menos de quatro vezes por mês. Geralmente, quando há quatro episódios por mês podemos indicar algum tratamento preventivo, com medicações e o TCC”, explica Faro.


Com os medicamentos, a duração do tratamento é bastante variável. A criança pode ser medicada de seismeses a um ou dois anos. Para os adultos, foi aprovado um novo medicamento contra as enxaquecas. Trata-se do erenumab, um anticorpo monoclonal produzido especificamente para a doença, com menos efeitos colaterais e podendo ser usado apenas uma vez por mês.


Aprovado em 2018 na Europa e nos Estados Unidos, a medicação recebeu o aval da Anvisa em março de 2019. A medicação, porém, não pode ser indicada a crianças e adolescentes. Terapia cognitivo-comportamental contra enxaqueca Uma das indicações de tratamento contra enxaqueca em crianças e adolescentes é o uso da terapia cognitivo-comportamental (TCC), associada a medicações. Trata-se de uma área da Psicologia e que pode ser usado em adultos também. Quando você faz o tratamento da TCC, o psicólogo leva a criança ou adolescente a entender melhor os sintomas. Nessa área, o entendimento é que o pensamento gera um sentimento, que gera um comportamento. É uma sequência e a criança será induzida a reconhecer esses três parâmetros para ajudar a controlar os sintomas”, explica Paulo Faro, médico neurologista.


Como há fatores externos, geradores de estresse, que favorecem o desencadear da dor, ao controlá-los você consegue ter mais ação contra a doença. “Um dos fatores é emocional. Naquela criança muito irritada, nervosa, ansiosa, por meio dessa abordagem você consegue melhorar a ansiedade, os pensamentos dela, e não culmina na crise”, diz o especialista.


De onde veio a dor? – A enxaqueca é uma doença genética. Logo, se os pais ou avós têm enxaqueca, há
um risco maior de que as crianças também desenvolvam as dores.

Fonte: Gazeta do Povo / Viver Bem |  Data: 03/10/2019