Hospital INC - Instituto de Neurologia de Curitiba

Cirurgia de Ross, uma revolução no tratamento de pessoas jovens com cardiopatias congênitas

"Há mais de duas décadas, iniciei um protocolo de estudo para avaliar com precisão a eficácia da Cirurgia de Ross para tratar pessoas com doença da valva aórtica. Desenvolvida em 1967 pelo médico britânico Donald Ross, essa técnica revolucionária e complexa consiste na utilização do autoenxerto pulmonar para substituição da válvula aórtica comprometida e promete resultados melhores que o uso de próteses comercialmente disponíveis, mas, passado tanto tempo, ela ainda é pouco comum. Então, meu objetivo era comprovar que esse procedimento apresentava vantagens significativas em comparação com os outros métodos mais convencionais." diz Doutor Francisco Diniz Affonso da Costa, cirurgião cardíaco do INC e autor do artigo.

As próteses mecânicas, que podem durar para o resto da vida, são produzidas com uma liga metálica especial e não sofrem quebras ou desgastes, mas trazem um risco bastante sério e que deve ser levado em consideração: seu uso pode resultar em coágulos, que em alguns casos se deslocam até o cérebro e causam derrames. A solução é o paciente usar anticoagulantes para o resto da vida e realizar exames de monitoramento, entretanto, ainda assim, cerca de 2% deles, a cada ano, ficam sujeitos a sofrer derrame em função de embolia ou hemorragia séria em decorrência da utilização desses medicamentos, com risco significativo de graves sequelas.

Outra opção é o uso de válvulas biológicas, que oferecem um resultado adequado, mas possuem durabilidade limitada e que depende da idade do paciente. Com o passar do tempo, o sistema imunológico se torna mais fraco, o que faz com que esse tipo de válvula dure mais em pessoas com mais idade, mas seja menos apropriada para o público mais jovem.

Desenvolvida com foco em pacientes com menos de 60 anos de idade e com expectativa de vida de, pelo menos, mais 20 anos, a Cirurgia de Ross consiste em substituir a válvula aórtica doente por uma válvula pulmonar sadia do próprio paciente (autoenxerto), que tem potencial de durabilidade de pelo menos mais 40 ou 50 anos e evita quase completamente a chance de coágulos e infecções. A válvula pulmonar é a única que é viva e pode se regenerar com o tempo. Assim, o procedimento pode ser realizado até mesmo em uma criança, pois a válvula tem a capacidade de crescer junto com ela e se desenvolve no organismo de forma natural, o que a faz ser recomendada para adolescentes e atletas. No lugar da válvula pulmonar extraída, é implantada uma válvula de outra pessoa (homoenxerto), proveniente de um banco de válvulas.

Para atestar sua eficácia e segurança, a coleta de dados para a pesquisa ocorreu no período de 1991 a 2018 e avaliou resultados da utilização do Procedimento de Ross em 1.431 pessoas, de 18 a 65 anos, em cinco centros que contam com um programa especializado nessa técnica no mundo, localizados no Canadá, na Bélgica, na Inglaterra, na Austrália e no Brasil. Os pacientes foram acompanhados ano após ano, com a realização de exames como o ecocardiograma para certificar o bom funcionamento da válvula, o que permitiu verificar, por meio de análises estatísticas e científicas aprofundadas e cruzamento de dados, que os centros envolvidos obtiveram resultados fundamentalmente semelhantes.

Mais de 50 anos após a criação do Dr. Ross, a observação comprovou que se trata do melhor método para devolver a qualidade de vida para esses pacientes, com a possibilidade de ter uma rotina absolutamente normal, o que deu origem a um artigo científico publicado na conceituada revista JAMA Cardiology (Journal of American Medical Association): https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/article-abstract/2776852

"No Brasil, no ano de 1995, tive a honra de ser o primeiro a realizar esse procedimento. Hoje ele faz parte do rol da ANS (Agência Nacional de Saúde), que o reconhece e, consequentemente, garante sua cobertura pelos planos de saúde. Porém, apesar do saldo extremamente positivo, das quase 10 mil trocas de válvula realizados anualmente no país, apenas cerca de 40 utilizam a Técnica de Ross. Essa discrepância se deve não aos resultados atingidos, mas à necessidade de um treinamento especializado, pois envolve várias nuances técnico-operatórias" relata o cirurgião cardíaco.

No entanto, por dispensar o uso contínuo de anticoagulantes de alto custo, trata-se de uma solução apropriada para a parcela da população brasileira que, por razões socioeconômicas, pode enfrentar dificuldades em adquirir esses medicamentos, além dos riscos já citados que eles oferecem. Assim, é um modo mais democrático de salvar vidas, inclusive porque é a única operação capaz de devolver uma expectativa de vida semelhante à da população normal pareada para sexo e idade nos 20 anos seguintes ao procedimento, o que me motiva a divulgar e incentivar o seu uso.

Francisco Diniz Affonso da Costa é cirurgião cardíaco do Instituto de Neurologia de Curitiba (Hospital INC) e do Hospital Santa Casa de Curitiba. Realizou a primeira operação de Ross no Brasil, no ano de 1995. Tem mestrado, doutorado e livre-docência em cirurgia cardiovascular.

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Fonte: O Estado de São Paulo | Data: 15.07.2021